quinta-feira, 10 de maio de 2012

Vestindo a roupa de mãe

Tem gente que tem roupas para trabalhar, roupas para sair à noite, roupas para sair de dia, roupas para ginástica, roupa pra praia, roupa pro campo. Parece que a pessoa veste um personagem dependendo da situação. E não estou dizendo isso de um jeito depreciativo. Talvez seja uma maneira de se preparar para encarar aquela realidade. Só que eu sou do tipo que tem roupas. E ponto final. Com exceção das roupas de ginástica, né. Às vezes, quando compro uma peça nova, demora um tempo pra me adaptar, pra elas caberem direito, pegarem a forma e, acima de tudo, o conforto de mim mesma.

A associação pode parecer bizarra, mas na primeira reunião de pais do Bernardo eu me senti como quem veste A roupa, assim com A maiúsculo mesmo. Aquela pela qual a gente esperou muito tempo pra comprar. Que a gente idealizou, imaginou, sonhou e projetou como ficaria. E eu estava lá, toda empolgada, cheia de orgulho, me achando. Internamente eu ficava repetindo: eu tenho um filho e estou na reunião da escola dele!! Simultaneamente, eu pensava: caraca, como pode EU ter um filho? Não é à toa que eu tendo a ficar me convencendo de que a coisa toda é real. Porque muitas vezes sinto como se eu fosse uma menina, vestindo a roupa da mãe e fingindo ser ela. É engraçado isso de se tornar mãe. Até hoje, com Bernardo prestes a completar 1 ano e 4 meses, são várias às vezes em que parece que estou passando um trote ao dizer: eu tenho um filho! Como se eu estivesse fantasiando. É meio surreal. E não sei quando (e se) isso passa.

Pensando bem, no geral, tenho um certo delay para a ficha da mudança cair em momentos importantes da vida. Aconteceu quando tive o primeiro namorado. Apesar da exaltação típica do acontecimento, eu falava "meu namorado" e era como se a palavra enchesse a boca de um jeito meio torto, que me deixasse com uma cara esquisita. Como se ainda não combinasse comigo. Como se eu estivesse sendo pega em flagrante. E quando a gente altera o status de namorado para marido, então? Daí ferrou-se tudo. Veio uma sensação de que as pessoas iriam mandar eu tomar vergonha na cara e parar de fingir! Porque a falta de costume em dizer isso acompanha a falta de costume em ser também. Deve ser mais ou menos como ganhar na megasena. De repente você fica milionário. E fica lá abrindo a conta corrente toda hora pra ver se é real mesmo. aliás, sempre tive curiosidade pra saber se milionários tiram extrato!. Deve demorar um tempo pra virar rotina. E eu duvido que vire.

Ser mãe recente também parece uma coisa assim, como quem arrisca uma combinação de estampas quando costumava só usar roupas lisas. E fica se sentindo estranha, achando que tá todo mundo olhando. Talvez um dia seja mais confortável, como aquela roupa velha que a gente usa quando só quer ser a gente mesmo. Por enquanto, apesar do estranhamento, é a roupa que eu mais gosto de vestir!

Um comentário:

  1. Adorei o texto! Sabe que eu tenho a cara de meninoca de tudo, sou baixinha, magricelinha, meiguinha, quando falo que sou casada, tenho filho e quase 30 anos as pessoas assustam, e no fundo parece que quando cai minha ficha até eu assusto um pouco, como se estivesse misturando as estampas pela primeira vez e estivesse todo mundo olhando!
    Beijo

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